Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos
LUZ E SOMBRA
Em uma boate de luxo, de acompanhantes de executivos e milionários, Leopoldo está ocupando uma mesa e assistindo um show. Vê uma linda garota e fica olhando para ela, encantado com sua beleza. Chama o garçom e pede para ele dizer a ela que quer conhecê-la
Laura chega até ele:
-Boa noite! Você quer falar comigo?
Leopoldo  diz:
-Boa noite! Quero conhecê-la. Sente-se.
Laura senta-se e sorri para ele.
-De perto você é ainda mais linda. E que sorriso! Você é espetacular. Qual o seu nome?
-Laura.
-O meu nome é Leopoldo. É um prazer conhecê-la.
Laura sorri e fica em silêncio.
-Bebe alguma coisa? (chamando o garçom)
Laura fala para o garçom:
-Um  drink  de morango com champanhe. (piscando para ele que já sabe que é sem álcool).
-Você é muito refinada, elegante e tão novinha. Pode me dizer sua idade?
-Isto importa?
-Não. Apenas curiosidade.
-Tenho vinte anos.
-E por que escolheu trabalhar nesta atividade?
-Não escolhi. Foi necessidade. Maldade de algumas pessoas. Falta de opção. Sobrevivência
-Conta para mim quem  foi capaz de fez maldade com uma pessoa tão delicada.
-Não faz parte do pacote falar sobre minha vida.
-Desculpe. Não quis ser indelicado ou indiscreto.
-Tudo bem.
O tempo vai passando e Leopoldo continua conversando com Laura. Ela vai ficando impaciente e diz.
-Escuta. Você vai querer ficar comigo? Ou posso me retirar.
-Eu estou com você. Seria indelicado você me deixar aqui sozinho.
-É que eu trabalho por hora e se ficar aqui sem trabalhar não vou faturar.
-Se estou tomando o seu tempo, vou pagar por ele.
-Assim, sem…nada.
-Sim. Assim sem nada. Não está gostando de conversar comigo? Estou lhe entediando?
-Não. Estou gostando de lhe ouvir. Você é um homem inteligente e interessante. Estou amando você me falar sobre artes, livros, história, música.
-Isto é uma ironia?
-Não. Eu amo ler e amo estes assuntos que você domina. Estou aprendendo muito com você.
-É sério? Gosta destes assuntos mesmo? E gosta de ler?
-A leitura é quase uma fuga para mim. Esqueço de minhas vicissitudes.
-E são muitas as vicissitudes?
-Algumas…
-Desculpe! Estou sendo indiscreto novamente, não é?
-Não. Tudo bem.
-Que tipo de livro você gosta de ler?
-Romances, literatura em geral,  história, história da arte. Gosto de ler sobre a história dos povos. Tudo que for bom eu gosto de ler.
-Você me parece uma garota muito inteligente. Além de ser belíssima, muito elegante e fina.
Laura fica calada.
-Estou sendo repetitivo, não é?
-Considero que sou inteligente sim. E sempre gostei de ler.
-Uma mulher lindíssima, tão jovem, culta e  inteligente. Não é muito comum.
-Isto é preconceito. Não combina com sua inteligência e nível intelectual.
-Desculpe. Acho que hoje estou um tanto indelicado, Não sou sempre assim.
Laura fica calada.
-Laura, Laura. Estamos aqui conversando há mais de três horas. Sou bastante prolixo e quando encontro alguém que se interessa pelo que falo, ai eu perco a noção da hora. Gostei muito de conversar com você. Vou lhe dar um livro que fala sobre a história da colonização das Américas. Acho que você vai gostar. É o mais completo que já vi até hoje e não é daqueles livros cansativos.
-Você vai me dar?
-Sim. Por que o espanto? Você não gosta deste tipo de assunto?
-Sim, gosto muito.
-Então, eu admiro e valorizo muito uma pessoa que gosta de leitura, de história e artes.
-Você pode nem me ver mais.
-Você não está sempre por aqui? Eu venho às vezes assistir shows mas nunca havia lhe visto
-Estou aqui há pouco tempo. Eu só fico aqui.
-Ótimo. Eu quero lhe ver novamente. Na terça eu lhe vejo. Pode ser? Quero exclusividade do seu tempo. Pago por esta exclusividade. Se conseguir encontrar, eu lhe trago o livro na terça.
-Os homens que aparecem aqui são, quanto mais ricos, mais arrogantes e só querem nos usar. Você parece ser muito diferente.
Leopoldo diz sorrindo:
-Entendo.
Ele paga sua conta e diz a ela.
-Vamos acertar a nossa conta?
-Não posso cobrar. Você me paga só a comissão que tenho que pagar.
-Negativo. Tomei seu tempo e não fiquei com você porque não quis.
Ele paga, se despede e vai embora.

Leopoldo chega e olha o ambiente procurando Laura. Acomoda-se em uma mesa e chama o garçom. Pede uma bebida e pede ao garçom para avisar Laura que ele está lá.
Laura chega:
-Oi! Não é que você veio mesmo?
-Eu disse que viria. Sente-se. Estou tomando um drinque. Bebe alguma coisa?
-Um drinque de morango com champanhe. (o garçom chega, Leopoldo faz o pedido e ela pisca para o garçom que entende o recado).
-Aqui está o presente que lhe prometi.
Laura sorri:
-Nossa! Pensei que nem se lembraria mais disto. Não é sempre que se encontra homens como você. Sei que vou amar o livro. Posso abrir?
-Prefiro que você abra  num lugar mais reservado. Vamos terminar esta bebida e vamos sair daqui, pode ser?
- Claro. Pode ser.
Leila e Leopoldo estão numa suite.
Leopoldo diz:
-Agora pode abrir seu presente.
Laura abre o embrulho:
-Que linda edição! Nossa! Vou amar
Leopoldo diz sorrindo para ela:
-Espero
Laura fica olhando para ele e aguardando a sua iniciativa. Ele olhando para ela, pergunta:
-Posso lhe despir?
-Precisa pedir? Acho que estamos aqui para isto, não é?
-Sim. Mas antes eu preciso lhe dizer uma coisa.
-Pois diga. Ah! esqueci de lhe dizer minhas condições:  não aceito beijo na boca nem sexo anal. Sexo oral só com uso de  camisinha e só transo com se você usar camisinha. Se não lhe agradar ainda estamos em tempo de desfazer nosso negócio.
Leopoldo olha para ela com um sorriso e diz:
-Calma, lady. Eu preciso lhe falar antes de mais nada.
- Pois fale.
- Bem, é que, que…
- Quê?
- Laura, eu sou impotente. Não tenho ereção. Nunca tive. Sofri um acidente quando ainda era muito novo e perdi a capacidade de ter ereção.
Laura olha com espanto:
-E por que estamos aqui então? O que espera de mim? Quer me despir para quê?
-Para olhar para você. Você é muito linda. Queria lhe pedir uma coisa. Se você não se importar.
-O que é?
-Você pode se masturbar para eu ver você gozando?
-Que idéia. Não costumo me masturbar. Nem sei se conseguiria fazer isto com você me olhando.
-Hoje passei num sexshop e comprei este brinquedinho. Vai lhe ajudar. Você faz isto por mim?
-Nunca imaginei passar por tal situação. E nunca usei este tipo de brinquedinho.
-Se você não quiser, não tem problema. Mas eu posso acariciar seu corpo? Beijar seus seios? Seu corpo todo? Isto me faz muito bem.
-Bom, eu estou aqui para lhe atender. Podemos tentar, não sei se vamos ter muito sucesso. Você está me pagando para eu lhe dar prazer.
Leopoldo começa a tirar a roupa de Laura. Depois se despe também. Começa a acariciar o corpo dela.

Leopoldo e Leila estão nus deitados na cama abraçados. Ele diz:
-Obrigado, Laura, por me entender e fazer o que lhe pedi. Estou me sentindo muito bem. Que bom ficar aqui juntinho com você. Eu sou muito solitário. Não tenho mais meus pais. O meu único irmão mora na França e já tem mais de cinco anos que não o vejo. Raramente a gente se fala por telefone. Tenho pouquíssimos amigos que estão ocupados com o trabalho ou com a família. Quando lhe vi e conversei com você, fiquei encantado com sua beleza, com sua classe, com sua inteligência. Gosto de conversar com você e de saber que você gosta de me ouvir. Gostaria de passar pelo menos duas noites por semana com você. Você aceita esta situação.
-É um tanto inusitada esta situação, mas se é o que lhe deixa feliz, eu estou aqui para agradá-lo. Você me paga por isto. Sabe que nunca tinha usado um brinquedinho erótico?Mas eu me acostumo.
-Não precisa lembrar que você só está fazendo isto por dinheiro. Prefiro pensar que tenho um pouco do seu carinho. E que a gente pode conversar. Uma conversa inteligente.
-Vou gostar muito de conversar com você. Sei que vou aprender muito.
Leopoldo aperta-a em seus braços. Podemos combinar terça e sexta? Quero exclusividade nestes dias.
-Não acha que é muito dinheiro prá torrar assim, por tão pouco?
-Pagaria até mais. Tenho muito dinheiro e tão poucas alegrias. Estou feliz por estar aqui com você. Sentindo uma paz de estar em seus braços. Sentindo que estes momentos de prazer e leveza estão dando sentido à minha vida tão vazia de emoções. Isto não tem preço. E não é pouco.
-Você sentiu prazer em me  ver masturbando?
-Meu prazer é muito limitado, mas me senti bem em ver você gemendo de prazer. Senti prazer e alegria em lhe tocar, em beijar seu corpo. Contemplar sua beleza.
-É tão raro encontrar um homem assim romântico, que diz palavras tão lindas e delicadas. Você me parece muito especial.
-Fico envaidecido por você pensar assim.
-Nunca pensou em uma relação homossexual, ainda que seja com o brinquedinho erótico? Não gostaria de experimentar? Poderia lhe ajudar.
-Não sou homossexual. Isto nem me passa pela cabeça. Quero as coisas exatamente como foram hoje. Pode ser?
-Tudo bem. Se lhe faz bem, eu aceito.
-Laura, eu vou embora. Na sexta eu volto. Combinado?
- Sim.
Ele faz o pagamento, dá um beijo na testa dela e vai sair. Volta e diz:
-Quero lhe pedir uma coisa. Você é muito linda. Não precisa de tanta maquiagem. Posso lhe ver de rosto limpo na sexta?
- Pode ser.
- Tchau, meu anjo.
- Tchau.
Ele sai e ela pensa: “É cada uma. Mas tenho pena dele e de mim também. Odeio estes homens nojentos e grosseiros me tocando. Misericórdia de Deus este homem ter aparecido na minha vida.”
Levanta-se, toma uma banho demorado e vai embora para seu apartamento. Dorme como um anjo. Sente-se feliz por ter encontrado aquele homem tão gentil e infeliz. Sabe que vai colocar um pouco de alegria na vida dele  e que sua vida vai ficar mais fácil e tolerável. E sua rotina continua…
Leopoldo chega em sua mansão. Uma casa linda e luxuosa mas cheia de solidão e amargura. Vazia de vida. Pensa na jovialidade, vivacidade e beleza de Laura e sorri.
Sabe que ela vai trazer alegria, cor, brilho e luz para sua vida tão monótona, sombria e infeliz…
Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 22/02/2021
Alterado em 14/05/2023
Copyright © 2021. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários