Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos
A Bela e o Padre
Corria o ano de 1962 numa cidade do interior.
Camila sentia-se cada vez mais insatisfeita em seu casamento. Casou-se aos dezoito anos por imposição de seu pai. Inúmeras brigas iam minando a relação. Seu esposo muitas vezes abusava da bebida e era agressivo. Por sua beleza despertava a inveja e ciúme das mulheres e atraía os olhares e a atenção dos homens.
Neste domingo ela está muito triste. Chega na Igreja para assistir a missa. Sua alma está em prece. De repente ela olha para o altar e o novo padre da cidade está olhando fixamente para ela. Ela sente um frio percorrer seu corpo. Ele desvia o olhar.
Durante toda a semana ela pensa naquele olhar penetrante. Fica incomodada.
Nos próximos domingos, na Igreja, ela sempre cruza seu olhar com o do padre, como se estivessem conversando pelos olhos.
Alguns meses depois Camila e seu esposo se separam. A separação é o assunto da cidade. Naquele tempo, nesta cidade tão provinciana e conservadora, o término de um casamento era ainda um escândalo. A mulher fica marcada pela sociedade local.
Quando Camila entra na Igreja todos a olham com reprovação, como se ela fosse uma proscrita e devesse se manter longe dos encontros sociais e religiosos. Mas ela não se importa. É uma mulher forte e enfrenta de cabeça erguida os olhares de todos.
Durante as missas seu olhar continua se cruzando com o do padre Teodoro. Sente os seus olhos cada vez mais íntimos com os dele.
Um dia ela se enche de coragem e vai se confessar com ele.
Quando ela se ajoelha no confessionário ele reconhece seu olhar e fica um pouco nervoso, mas se controla.
-Padre, meu pecado é amar um homem proibido para mim.
-Minha filha, este homem é casado?
-Não. Não é e nunca poderá ser.
Ele fica agitado e percebe o que ela quer dizer.
-Se é proibido para você, por que não esquece?
-Acha que a gente manda no coração?
-Mas o que não pode ser tem que ser esquecido.
-Padre, eu tive um casamento profundamente infeliz. Fiquei casada por seis anos, não tivemos filhos.  Casei muito nova por imposição de meu pai. Acabamos nos separando. Sou uma mulher separada.
-Minha filha, mas o casamento é indissolúvel.
Contestadora do que acha errado, ela diz:
-Deus quer que as pessoas vivam infelizes só porque se casaram? Por que não podem se separar e tentar novamente? Eu não me casei por minha vontade.
-Minha filha, uma pessoa separada não pode casar novamente. Nem perante Deus e nem perante a lei.
-Mas por que tem que ser assim? Acha que tenho que viver sozinha o resto de minha vida?
-Não sou eu que acho. São as regras da Igreja e dos homens.
-Não concordo com estas regras.
-E de que adianta você não concordar? Elas são assim.
-Padre, eu venho todas as semanas assistir a missa. A única alegria que tenho na vida é quando meus olhos se cruzam com os seus.
-Não estou entendendo, minha filha. Não sei do que está falando.
-Sabe sim. Eu não me arrependo disto e nem acho que estou errada. Vai me dar a minha penitência?
-Não posso. Se lhe der uma penitência tenho que dar a mesma para mim. Por favor, pode se retirar.
Nos próximos meses Camila e padre Teodoro se aproximam. Muitas vezes se encontram secretamente e conversam sempre.
Um dia eles estão na casa de Camila. Ele beija-a. Ela se entrega. Vão se acariciando. Ficam muito próximos e um desejo louco toma conta deles. De repente ela o afasta.
-Para,  Teodoro, não dá. A gente não pode fazer isto. Não está certo
-Mas está acontecendo. O que podemos fazer? Você acha que isto não está me incomodando? Você me procura, fica me tentando. E agora foge?
-Você teria coragem de se deitar comigo e depois subir ao altar para uma celebração?
-Eu estou confuso. Estou vivendo um inferno.
-Eu não aceito. Não está certo.
-Eu sou um homem. Será que eu não tenho o direito de amar? De desejar uma mulher? Será que é certo isto? Será que é isto mesmo que Deus quer? O ser humano foi feito para ser feliz.
-Você escolheu este caminho. Era livre para escolher e  abraçou o sacerdócio.
-Eu não sabia que um dia eu poderia amar e desejar tanto uma mulher. E você é culpada por isto. Você me procurou, você se declarou.
-Não sou culpada. Foi um acontecimento recíproco
-Sim. De nada adianta discutirmos culpa neste momento. Precisamos saber é o que fazer com este sentimento que arde e pulsa dentro de nós.
-Eu, embora seja desquitada, sou livre para amar. É você que tem que fazer sua escolha.
-Escolha?
-Eu só lhe aceito se você renunciar ao seu sacerdócio.
-Você está me colocando contra a parede. Eu não posso abandonar assim meu sacerdócio. Desde criança fui preparado para ser um sacerdote.
-Então você se tornou padre por isto? Desculpe lhe dizer, mas isto é perverso. Colocaram sobre seus ombros um fardo muito pesado.
-Quem disse isto? Eu quis me tornar um padre. Sempre.
-Sinto muito. Eu não vou fazer as coisas como você quer. Não quero viver em pecado e me escondendo das pessoas.
-Você acha que não viveria em pecado com outro? Perante a Igreja você é casada. O desquite não lhe dá o direito de se casar oficialmente com outro.
-E você viveria comigo em pecado e depois ocuparia o altar para celebrar como se nada houvesse acontecido? Não é muita hipocrisia?
-E não é um pecado você pedir que um servo do senhor, um padre abandone seu sacerdócio?
-O que você pretende então? Deitar-se comigo e depois agir como se nada houvesse acontecido?
-Eu não sei. Eu nunca me vi numa situação desta. Desde minha ordenação eu jamais me interessei por uma mulher até você aparecer.
-Nada acontece por acaso. Talvez seu caminho seja este.
-Não. Eu não quero trair meus votos.
-Então não me procure mais. É o único modo de você não trair seus votos. Porque agora você está traindo.
-Eu estou enlouquecendo. Eu só penso em você. Sonho com você dormindo e acordado. O que eu faço?
-Só você pode decidir. Só você pode fazer esta escolha. E pode ter certeza que eu vou aceitar e respeitar a sua escolha.
-Eu vou embora. Tenho que pensar.
Ele sai apressado.
Durante muitos dias padre Teodoro se mantém em oração e jejum. Em prece a Deus para que o ilumine.
Neste dia ele toma algumas providências e depois procura Camila.
Ele chega na casa dela e a olha em silêncio. Ela diz:
-Entre
Ele entra e fica em silêncio. Ela espera que ele diga alguma coisa.
-Eu já tomei a minha decisão, Camila.
Ela estremece
-Pois diga o que foi que decidiu. Estou esperando.
-Foi uma decisão muito difícil, muito sofrida. Durante muitos dias eu estive em oração e jejum. Em prece a Deus para que Ele me iluminasse. Agora eu estou muito seguro. Tenho certeza que tomei a melhor decisão. Dentro de mim já não há dúvidas, não há mais conflito.
-Fico feliz com isto, Teodoro. Você é uma pessoa muito especial e maravilhosa para viver em conflito, em confusão. Você merece estar em paz. E como eu disse eu vou aceitar a sua escolha com serenidade. Eu amo você Teodoro, mas vou acatar a sua decisão.
-Eu também amo você Camila. Como e nunca pensei que um dia fosse capaz de amar.
Fica em silêncio.
-Vamos acabar com isto, Teodoro. Diga o que você decidiu.
-Eu não posso abandonar meu sacerdócio. É mais forte que eu. Eu já pedi a minha transferência de paróquia, de cidade. É questão de dias para eu ir embora.
-É mais forte que o seu amor, não é?
Ela baixa a cabeça. Ele diz:
-Mais forte que o meu amor não é. Mas eu devo reprimir este amor.
-Está bem. Seja como você quer.
-Você me dá um beijo de despedida?
-Não. Você nem devia me pedir isto depois de sua escolha. Eu espero que você viva em paz. Eu desejo a você toda paz e felicidade. Que você tenha sossego em seu coração. Desejo a você todo o bem do mundo.
-Eu também desejo felicidades a você Que você encontre alguém que possa lhe fazer feliz.
-Eu não estou preocupada com isto. Vou levar minha vida. E além do mais não é todo dia que se encontra um amor sincero e verdadeiro. Mas eu vou lhe esquecer, você pode ter certeza. Pode ter certeza que eu não vou sofrer. Eu vou me apaixonar por outras idéias, por outras fantasias.
-É tão fácil assim?
-Fácil não é. Mas eu vou conseguir.
-Só me resta dizer adeus.
-Eu estou em paz. Eu não lhe perdi para o mundo, eu não lhe perdi para outra mulher, eu não lhe perdi para a morte. Eu lhe perdi para o seu sacerdócio e para as coisas de Deus. E isto me deixa feliz.
-Eu nunca vou lhe esquecer. Vou sempre levar você comigo. Mas preciso reprimir este amor, mantê-lo só dentro de mim. Adeus, Camila.
Ele sai apressado. E então solta seu choro represado. Caminha devagar. Segue seu caminho, sua missão.
Camila senta-se no chão e chora. Fica ali por muito tempo chorando, imóvel. Depois levanta-se, ergue a cabeça, toma um banho demorado e segue sua vida. Não sabe se vai esquecê-lo algum dia mas vai superar e sabe que vai parar de doer. Sabe que  vai se acostumar, se adaptar. Amanhã é um novo dia e a vida continua…


Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 28/03/2021
Alterado em 30/03/2025
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Comentários
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Juli Lima
Boa Noite! Reflexiva narrativa! Gosto de seus temas... Bj poesia
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Moacir Rodrigues
Tenho duas histórias sobre padres, O PADRE E A DONZELA ( conto ), publicada em 02/11/20, e O PADRE SACANA ( cordel ), publicada em 25/01/21.
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Moacir Rodrigues
Imaginei que iam continuar esse amor proibido (para a época). Terá sido melhor assim?
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EHRROS
Pecaminoso enredo, talvez real por aí e por vezes. Leva-nos a duvidar de certos preceitos... Bem Profanum!