A Sete Chaves: Desvendando Segredos
Naquela noite eles acordaram com barulhos estranhos. Levantaram e perceberam que os barulhos pareciam vir de dentro da parede. Como pode ser? Ficaram por algum tempo observando depois voltaram a dormir. Nas noites seguintes a rotina era a mesma. Acordavam com barulhos no meio da noite. Intrigados resolvem investigar.
Luísa e Tadeu tinham mudado há menos de três meses para aquela casa. Eles se apaixonaram pelo lugar assim que foram conhecer para possível compra. Tinha um jardim na frente e um quintal grande lá atrás. O terreno era um pouco inclinado, mas eles começaram a planejar cuidar do jardim, plantar uma horta e revitalizar o pequeno pomar. A casa era antiga, de meados do século XX e eles planejaram uma reforma que a deixasse aconchegante, mas sem mudar muito o desenho arquitetônico. A casa tinha uma estrutura austera, conservadora e de extremo bom gosto. Fecharam o negócio.
Fizeram parte da reforma. Resolveram mudar e depois terminar. Alguns armários precisavam ser trocados e algumas mudanças necessárias para melhorar a aparência e conforto. Todo o tempo livre eles cuidavam da casa do jardim e do quintal. Tinham retirado o armário da suíte para uma substituição pois estava bem velho e danificado. E desde então acordavam no meio da noite com barulhos estranhos.
Examinando minuciosamente a parede depararam com o que parecia ser uma porta. Ficaram perplexos. O que significava aquilo? Tiraram a tinta que cobria e encontraram a porta. Abriram com esforço e viram uma escada escura. Com uma lanterna foram descendo com cuidado. A medida que desciam o ar ficava irrespirável. Cheiro de coisas velhas e mofo. Chegaram a outra porta que estava aberta. Iluminaram e viram uma sala ampla. Tinha estantes com livros, escrivaninha, sofá e algumas coisas espalhadas pelo chão. Pelo aspecto, há muitos anos ninguém entrava ali. Iluminaram a parede e perceberam que houve uma janela que foi retirada, restando a parede toda fechada. Verificaram a lâmpada e logicamente, não funcionava. Saíram pois não conseguiam mais respirar ali. À noite os barulhos parecendo gemidos e gritos continuavam.
Ficaram intrigados e curiosos com o que significava tudo aquilo. Por que a sala foi lacrada e isolada? Restabeleceram a iluminação e entraram para verificar melhor. Sobre a mesa estava um par de alianças. Os livros estavam bastante danificados pela ação do tempo. Alguns papéis estavam espalhados pelo chão. Eram poesias e outros textos escritos em uma letra bem feita e bonita, parecendo letra de mulher, mas já estavam se perdendo. Abriram a escrivaninha e havia alguns cadernos amarelados se estragando. Pegaram os cadernos e saíram dali. Talvez ali pudessem encontrar alguma explicação para o isolamento do lugar e para os gritos e gemidos que ouviam vindos de lá.
Abriram os cadernos e em alguns continham poesias, alguns escritos parecendo diário em que uma mulher se queixava da vida e de seu casamento. Precisavam examinar com muito cuidado pois alguns cadernos estavam se desfazendo. Chegaram finalmente a um caderno em que havia um texto endereçado a quem o encontrasse.
“Sou Maria Adelaide Fulgêncio Prado, esposa de Ítalo Álvares Prado. Nesta atual data de 19 de setembro de 1961 estou com trinta e quatro anos, sou casada há quatorze anos. Conheci Ítalo aos dezessete e logo nos apaixonamos. Quanto tinha vinte e ele trinta e sete anos, nos casamos. Por algum tempo ele foi o melhor marido do mundo, mas aos poucos foi se entregando novamente à orgia que vivia quando era solteiro. Tivemos muitas brigas e ele chegou a me agredir fisicamente. Ele me acusava de ser uma mulher seca e não lhe dar filhos, mas acabou descobrindo que ele era infértil, o que o deixou desgostoso e ainda mais rude e agressivo. Dizia que o que mais queria na vida era ter um filho. O meu amor por ele foi se acabando. A minha única alegria nos últimos anos era estar nesta sala com meus livros ou escrevendo versos e histórias.
Há cerca de um ano e meio conheci um homem pelo qual me apaixonei. Uma paixão tão intensa surgiu entre nós dois que não dava pra controlar. Começamos a nos encontrar aqui neste local que era só meu. Engravidei há seis meses. Dias atrás estava me trocando e meu marido viu minha barriga que eu tentava esconder. Em silêncio ele passou a me vigiar e me pegou com meu amado. Mandou tirar a janela e fechar a parede. Ele nos trancafiou aqui. Disse que vai contar a todos que fugimos. Estávamos planejando minuciosamente a nossa fuga de modo que ele não nos pegasse. Não deu tempo. Estamos sem comida e água, o ar está ficando rarefeito. Achamos que vai nos deixar aqui até morrer. Já estamos respirando com dificuldade e sinto que meu bebê está morrendo. Já nem se mexe mais. Nem consigo mais escrever muito bem. Quem encontrar este relato saiba que meu marido nos matou de maneira cruel mesmo sabendo que eu estava grávida.
A única coisa que eu queria da vida era ser feliz. Eu ousei não aceitar menos que a felicidade. Eu ousei desafiar um homem por um amor. Ousei não me calar diante das injustiças e agressões. Tudo o que eu queria nesta vida era ser uma mulher livre e mostrar ao mundo meus poemas e histórias. Ser reconhecida, ser conhecida. Não acredito que uma mulher deva ser subjugada e obedecer a um homem. Não sou nem nunca fui inferior. Sou um ser humano completo e capaz de tudo que quiser. Meus pecados foram me rebelar e viver um amor.”
As últimas palavras já estavam quase ilegíveis. Mas o caderno foi guardado sob todos os outros e talvez por isso não foi encontrado e destruído. Atônitos eles perceberam que houve um crime cruel naquela sala. Eles se perguntavam como o assassino conseguiu tirar os corpos de lá e é certo que tirou pois não havia nenhum vestígio. Decidiram investigar o que exatamente ocorreu ali. Sabiam que o crime estava prescrito, mas queriam saber o que aconteceu depois da morte deles.
Por alguns meses foram atrás da verdade. Pessoas que trabalhavam na casa e ainda estavam vivas, já bem idosas, contaram que o patrão disse que a esposa fugiu com o amante e que aquele assunto estava proibido ali. No entanto diziam que houve movimentação estranha na casa naqueles dias. Depois foi colocado um armário cobrindo a porta que levava à biblioteca da patroa. Era como se o lugar não existisse.
Ítalo viveu até os oitenta e nove anos, sempre triste, taciturno, olhar e pensamento vagos e distantes. Às vezes parecia que conversava com alguém. Isolou-se do mundo. Era como se estivesse prisioneiro de seus atos e de si mesmo. Depois de sua morte os sobrinhos venderam a casa que ficou com o mesmo proprietário até ser vendida para Luísa e Tadeu. O que continuava intrigando o casal era onde os dois foram sepultados. Voltaram várias vezes à sala para tentar encontrar indícios ou evidências do que ocorreu. Mas não encontraram nada.
Num dia bem cedo, depois de uma noite perturbadora, com muitos ruídos, gritos e gemidos eles desceram as escadas. Acendendo a luz viram escrito na parede com a letra de Maria Adelaide: “Duas covas rasas no fundo do quintal abrigaram nossos corpos. Precisamos de uma sepultura digna. Precisamos que nos façam justiça mostrando ao mundo a nossa história. Precisamos de paz pra seguir nosso caminho. E terão paz para habitar esta casa. Refaçam esta sala e sejam felizes.”
Eles ficaram apavorados. Chamaram a polícia para denunciar que tinham covas rasas em seu quintal. A polícia chegou e contaram a história. Incrédulos os policiais riram. Levaram-nos até a sala. Não tinha nada escrito na parede. Ficaram perplexos. O policial disse com ironia:
—Vocês nos chamaram para nos contar esta história fantasiosa? Estão brincando de fantasminhas? Temos mais o que fazer. E vocês deviam procurar o que fazer.
Saíram pisando duro e nem deram atenção ao pedido deles de olhar o quintal. Ele foram até lá e cavaram. Acharam as ossadas. Chamaram a imprensa para denunciar o crime. Chamaram novamente a polícia e com ironia disseram:
—Procuramos o que fazer e fizemos o serviço que vocês deviam ter feito.
Deram uma sepultura digna para o casal. Publicaram o relato de Maria Adelaide que correu mundo. Mostraram sua obra literária que ficou conhecida. Revitalizaram a sala/biblioteca colocando novamente a janela e mantendo o que puderam. Tiveram finalmente paz e sossego para viver na casa que escolheram.
Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 02/04/2025
Alterado em 02/04/2025