Liberdade Que Te Quero Vida
Não era a vida que ele queria, mas ia levando em banho-maria. como quem espera que o tempo evapore o que sufoca. Não era o trabalho que imaginou pra si, mas ia engolindo sapos até se sentir sufocado e enjoado. Não era o casamento ideal, mas ia sufocando sua alma, fingindo que o amor resistia. Não era o apartamento que idealizou, mas espremia-se nele com a mulher e dois filhos como quem ocupa o espaço da resignação. Não era o carro dos sonhos, mas ia rodando pela vida no trânsito de seus próprios desencantos.
A gravata sufocando tirava-lhe o ar, o paletó esquentando, cozinhava seu corpo e até seus sonhos. Doía a cabeça, tomava um analgésico, doía o estômago, tomava um antiácido. Doía as costas tomava um anti-inflamatório, batia tristeza tomava um antidepressivo. Frascos de medicamentos se multiplicavam alinhados como pequenas prisões. Pressão subindo, tensão se elevando, corpo cansado, alma encurralada.
Trabalho maçante, desinteressante, estressante. Chefe incompetente, medíocre, arrogante, insuportável, intragável. Chegou a gota d’água que transbordou. Pegou o chefe pelo colarinho e disse meia dúzia de verdades represadas há muito tempo.
Saiu dali tirando gravata, paletó, camisa, sapatos, meias, calça e cueca, como se quisesse deixar pra trás toda a dor que carregava na alma e se libertar de toda a insatisfação. Andando nu pela rua, cantava alto em voz quase delirante:
“Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós...”*
Pessoas escandalizadas assistiam à cena, outras debochavam e filmavam. Antes que a polícia chegasse um colega de trabalho o resgatou e levou para casa. Todos deram o veredicto: surtou, enlouqueceu. Uma licença médica e um psiquiatra talvez resolvam a questão. Por dentro tudo continuava igual. Insatisfação fervendo, alma em suspensão.
Pensou, pensou, pensou… Procurou uma saída. No último dia de licença médica pediu licença sem vencimentos, no serviço público. Fez uma pequena mala e fugiu. Desapareceu sem deixar rastro. Chegou em uma praia, numa pequena cidade e resolveu ficar. Conseguiu um trabalho de garçom e depois montou sua própria barraca na praia para atender e servir os turistas. Nunca se arrependeu. Estava bem e feliz como nunca.
Ia vivendo, gostava do lugar e da vida que levava. Só uma coisa o inquietava, a ausência dos filhos e da esposa. A saudade batia forte no peito e tirava um pouco da sua paz. Queria que estivessem ali com ele. Pensou, pensou pensou… Resolveu voltar e tentar trazê-los. Chegou. Cabelos longos, barba cerrada, pele queimada pelo sol. Ao vê-lo a esposa olhou surpresa e com um certo desprezo.
—Muito bonito, hein?
—Você achou? — sorrindo irônico — Pensei que fosse achar horrível, que fosse brigar.
—Deixe de ser cínico. — retrucou — O que tem a me dizer de tanta irresponsabilidade?
—O que você chama irresponsabilidade eu chamo liberdade, felicidade.
—É fácil dizer isso. Difícil é criar sozinha nossos filhos.
—Você nunca precisou de mim pra nada. Sempre jogou isso na minha cara.
—Mas você fez dois filhos e eles queriam o pai presente.
—Queriam? Não querem mais?
—Já estão crescidos. Aprenderam a não sentir sua falta. — ele baixou os olhos.
—Eu precisava fazer o que fiz ou teria morrido doente. Ou me matado.
—Todos têm problemas. Os fracos fogem.
—Cada um sabe de si. — murmurou — Não vai perguntar por onde andei?
—Não tenho o mínimo interesse. E não te aceito de volta.
—Voltei pra buscar vocês. De tudo, só senti falta de você e de nossos filhos.
—Buscar? Pra viver desse jeito? Como mendigo? — olhando-o com desprezo.
—Estou morando em uma praia. Lá tem tudo que preciso.
—O que você precisa não é o que precisamos. Volte pra lá.
—Não sentiu minha falta?
—Não. Agora saia. Não quero que meus filhos vejam em que o pai se transformou.
Ele ficou em silêncio por um instante. Depois, quase num sussurro, disse:
—Você me deixa triste. Pensei que podíamos ter uma vida nova. Melhor que esta.
—Isso é muito relativo. Gosto da vida que levo. Meus filhos também. Saia. Pra sempre.
Ele saiu. sem olhar para trás. Voltou pra sua vida. A vida que lhe dava prazer, que o fazia feliz. Ali entre o sol e o mar encontrou a paz. Encontrou a vida que o libertava. A vida que era verdadeiramente sua.
•Trecho do Samba Enredo de 1989 - Liberdade, Liberdade! Abre as asas sobre nós - G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense - RJ. Compositores: Jurandir/Niltinho Tristeza/Preto Jóia/Vicentinho.
Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 20/10/2025
Alterado em 21/10/2025