O Chocalho Da Cascavel
O som do chocalho não é o prenúncio de um ataque. É um aviso que a perigosa cascavel está por perto. Ainda assim muitos ignoram o aviso.
Leopoldo era um jovem sonhador. Tímido e arredio vivia para os estudos, a música e os versos que escrevia. Não era um rapaz muito bonito e nem atirado como os outros jovens. Ficava sempre na sua, era de poucas palavras e desajeitado. Filho único de Salvador e Stella, tinha o luxo da casa mas não o calor do lar. Seus pais, ocupados demais em multiplicar fortuna, esqueciam de regar a alma do menino. Era apaixonado por Lívia, a filha de um amigo da família. Ela, linda e cheia de vontades, desejava muito mais que um cara desengonçado e tímido como ele.
Mas o destino, como uma serpente, tem suas artimanhas. Lívia, garota atirada e ladina, começou a se aproximar de Leopoldo. Dizia que gostava de sua doçura e sensibilidade. Fingia uma paixão repentina. Ele acreditava e sentia-se cada vez mais apaixonado. Ela dizia que ele tinha que esperar o seu tempo. Ele, cada vez mais perdido de amor, fazia-lhe todas as vontades. Ela voluntariosa e mimada estava sempre distante como que num pedestal. Algum tempo depois ela engravidou e resolveram casar. Seu pai, muito mais que sua mãe, estava entusiasmado com o casamento e com a chegada do netinho.
Casaram-se em uma cerimônia requintada e elegante, com flores brancas e festa cheia de pompa e luxo. O menino nasceu rápido demais, mas Leopoldo amava demais sua esposa e se calou pensando que ele poderia estar errado. Não pensou mais naquilo e se sentia o homem mais feliz do mundo, apesar de todos os chiliques e exigências dela. Fechava os olhos para suas estranhas ausências em diversas ocasiões. Ela sempre tinha alguma desculpa para as escapadelas e ele sempre aceitava e acreditava. Seu coração era um campo aberto para as mentiras que cresciam como flores venenosas.
Apesar de todas as mentiras e desamor de sua esposa, Leopoldo ia levando a vida e seu casamento. Era amoroso como pai e marido. Bem diferente se seu pai que sempre foi distante e frio. Sua mãe, que sempre viu com uma certa reserva aquele casamento, sentia-se feliz ao ver o filho se tornar um marido bem melhor que o pai e um homem feliz e responsável. Trabalhavam juntos na empresa. A vida não podia estar melhor.
Mas toda cascavel um dia mostra o som de seu chocalho e seu veneno a quem dela se aproxima. Numa tarde cinzenta Leopoldo chegou mais cedo em casa. O silêncio era cortado por gemidos abafados vindos do quarto. Sentiu-se desfalecer. Silenciosamente se aproximou e entrou no aposento. Ali na sua cama estavam seu pai e Lívia nus, se amando. Eles olharam e mal tentaram disfarçar, sabiam que nada do que dissessem ia adiantar.
—Meu filho, calma. Nem sempre as coisas são como se pensa. Vamos conversar.
—Saia da minha casa e não me chame de filho. Um pai não trai assim um filho.
—Calma, Leopoldo. Vamos conversar. — mas ele gritou
—Saia de minha casa. Não quero ouvir sua voz. Saia já. — vestindo-se ele saiu.
Lívia estava em silêncio. Não acreditava na covardia de Salvador que a deixou sozinha com o marido ensandecido. Tinha medo que apesar de ser pacato e apaixonado ele pudesse lhe agredir.
—O que o você tem a me dizer, vagabunda? Como tem coragem de me trair com aquele que se diz meu pai? Há quanto tempo você me trai com esse homem? Diga, ordinária. Eu não lhe basto? Precisa de meu pai também em nossa cama? Responde. Eu quero saber tudo. — foi se aproximando dela. Ela furiosa por ser deixada sozinha naquela situação começou falar, lançando sobre ele todo o seu veneno:
—Quer saber tudo? É isto que você quer? Está preparado? Pois eu vou falar tudo. Parece que na sua família não tem homens de verdade, só frouxos e covardes. Pois bem, abra os ouvidos e ouça, eu estou com seu pai há bem mais tempo que com você. Só me aproximei de você porque ele me obrigou, para não levantar desconfiança de nosso caso. Covarde, ele não quis me assumir e me jogou nos seus braços. Queria que eu te enrolasse por tempo indeterminado. Só me entreguei a você porque já estava grávida e precisava de um pai para meu filho, que na verdade é seu irmão. Meu erro foi aceitar tudo que o ele quis, foi não ter anunciado ao mundo e à sua mãe que eu estava com Salvador e grávida dele. O meu erro foi me casar com você. Eu nunca te amei, nunca te desejei, fico com você por obrigação. É seu pai que eu amo e desejo. Você é um tolo e ingênuo. Nunca desconfia de nada. Nunca percebe nada. Foi ótimo você nos pegar e colocar um fim nessa história.
Leopoldo ouvia a tudo estarrecido. Cada palavra era uma picada de serpente em seu coração. Não podia acreditar em uma traição tão sórdida, numa história tão terrível. Aproximou-se dela e deu-lhe uma bofetada. Num ato de repulsa cuspiu no chão e disse:
—Tenho nojo, asco de vocês. — virou-se e saiu.
Foi até a casa da mãe. Contou a ela toda a história. Estava desesperado, indignado, revoltado. Sua vontade era matar seu pai e aquela mulher traiçoeira. Sua mãe mal podia acreditar no que ouvia. Mesmo com ódio do marido e da nora ela tentava acalmar o filho. Tentou evitar, mas ele saiu dirigindo seu carro e a deixou aflita e desesperada pelo que ele poderia fazer. O marido não voltou para a casa e nem atendia o telefone, sua nora também não atendia. A noite passou. Leopoldo não voltou. No dia seguinte procuraram por toda a cidade. A aflição tomou conta de Stella.
Pelo meio da tarde o caseiro do sítio encontrou o corpo de Leopoldo pendurado em uma árvore… Stella mal acreditava no que ouvia. Não podia crer que seu único filho tirou a própria vida. Desesperada foi pra cima de Salvador e lhe batia com força chorando, gritando, fora de si. Ela o culpava. Ele estava em silêncio, em estado de choque. Não conseguia acreditar naquela notícia. Lívia chegou e Stella a expulsou dizendo que não queria vê-la nunca mais, que ela e Salvador mataram seu filho.
Passou a cerimônia fúnebre. Stella mal se mantinha em pé. Os dias se arrastavam lentos e amargos. Ela passou a viver entre o luto e a raiva. Até que se sentiu fortalecida para confrontar Salvador e Lívia.
—Leopoldo podia ter matado vocês por tamanha traição. Não se perderia grande coisa. Mas preferiu não sujar as mãos com cascáveis tão rasteiras. Deixou-lhes o pior castigo, principalmente para você, Salvador, que é conviver dia após dia com a culpa pela morte do seu filho, remorso por tê-lo ferido tão profundamente com o seu veneno letal. E você, sua vagabunda, um dia vai ter que explicar ao seu filho tudo o que fez, vai ter que conviver dia após dia com a culpa pela morte de Leopoldo. Se é que você tem consciência e capacidade de entender tudo o que fez. Eu odeio vocês com todas as forças que tenho em mim. Nunca vou perdoá-los. Você não merecem perdão. Nem dos homens e nem de Deus. São o que de pior existe neste mundo. Desejo que rastejem pelo pó da terra como cascavéis venenosas que são.
Salvador baixou a cabeça e chorou. O arrependimento e a culpa lhe corroíam por dentro. Lívia ficou em silêncio.
—Suas lágrimas não me comovem. Eu enterrei meu filho e meu coração sangra de morte. Perdi a um só tempo, filho, marido e neto. Mas eu vou me recuperar. E vocês? Podem se livrar do sangue que trazem nas mãos?
Salvador nunca mais se recuperou. Seguia cada dia mais deprimido e abatido. Enlouquecido, dizia ver Leopoldo lhe recriminando e ficava falando sozinho como se conversasse com o filho e lhe pedisse perdão. Chorava e gritava. Não podia mais viver sozinho. Stella preparou um quarto e o levou de volta pra casa.
Lívia, por sua vez, passou a ouvir sons estranhos nas madrugadas. Dizia que era Leopoldo lhe chamando e a acusando de traição. Parecia enlouquecida. O remorso e a culpa a faziam ter visões do falecido marido. Seguiu sua vida sozinha com seu filho.
Stella aos poucos se recuperou e seguiu em frente. Cuidou de Salvador até o fim, não por amor, mas por obrigação e piedade. Às vezes, ao entardecer, sentava-se no jardim e jurava ouvir o som de um violão, ao longe, tocando melodias suaves como as que tantas vezes seu filho tocava. Nunca entendeu a maldade e o veneno de Salvador e Lívia com o filho deles, com ela e com Leopoldo. Pensava que tudo poderia ter sido diferente se eles tivessem um pouco de amor e respeito no coração.
Ao caminhar pelo jardim, entre folhas secas, parecia ouvir o som leve do chocalho da cascavel, lembrando que todo veneno tem volta e todo amor profanado cobra seu preço.
Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 08/11/2025
Alterado em 08/11/2025