Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos
Uma Historinha De Amor, Tipo Conto De Fadas
O bar estava lotado naquela noite. Um ambiente aconchegante a meia-luz e uma música agradável em volume baixo dava um toque de charme e elegância.

Carolina estava numa mesa próxima ao balcão acompanhada de um rapaz, Pedro, sentado mais ao fundo com o amigo Álvaro, observava. Fingia não ligar, mas seus olhos estavam sempre nela.

O rapaz começa a abraçar Carolina e tenta beijá-la, ela resiste, tenta evitar. Pedro apertou o copo entre as mãos lívido. Levanta-se e vai até Carolina.

—Ei cara, larga a garota. O que você está pensando?

—Quem é você? Não enche o saco.

—Não importa quem eu sou, cai fora.

—Que é isso, Pedro? Você não tem… — Pedro corta.

—Cai fora, cara. Agora.

—Calma, estou indo. Não sou de violência. Esta garota é uma chata, cheia de frescura.

—O que é isso, Pedro? Quem lhe deu este direito? — vai saindo. Pedro a segura.

—Vem cá, não seja mal educada. Estou falando com você.

—Mas eu não quero falar com você.

—Mas vai me escutar.

—Largue meu braço.

—Não. Você não estava a fim de ficar com esse cara. Estava o evitando que eu vi.

—Você não tem nada com isso.

—Quero falar com você. Pode ser a última vez que você me suporta. Mas vai me ouvir.

—De que você está falando?

—Vem comigo. — puxa Carolina pela mão para um lugar mais reservado

—O que foi, Pedro? Quer estragar minha noite? Por que esta súbita preocupação comigo? Você nem liga para o que faço ou deixo de fazer.

—Tem certeza?

—Aliás, acho que você nem sabe que eu sou uma mulher. Pra você eu continuo aquela menina que você conheceu. Não preciso da sua proteção nem que você cuide de mim.

Pedro segura seu rosto e beija-a. Ela tenta resistir, mas o beijo tinha a força de algo represado há anos e o beijo se alongou carregado de passado, de revelações que não precisavam de palavras. Depois ele diz.

—Eu te provei agora que eu já percebi há muito tempo que você é uma mulher? Aliás eu sempre te enxerguei como uma mulher. Sempre me importei com você e tive ciúmes. Sempre fui apaixonado por você, desde que te conheci.

Ela está atônita, fica muda, o coração descompassado.

—Você não fala nada?

—Eu nunca percebi nada disto.

—Eu me sentia meio ridículo. Quando te conheci você só tinha doze anos, embora já tivesse aparência de uma linda mulher. E eu tinha o dobro da sua idade. Nem podia me declarar ou seria tido como pervertido. — ela olha pra ele sem dizer nada — Não aguento e não vou mais ser seu amigo. Quero ser seu namorado, noivo, marido.

—Eu gosto tanto de você, Pedro. Somos amigos há anos. Não sei viver longe de você.

—Eu estou pedindo pra você ser minha namorada, minha noiva, minha esposa. Você não entendeu? Pode pensar até amanhã a noite se aceita meu pedido.

—Você não pode fazer isto comigo. Eu estou tonta e nem sei o que dizer.

—Diga que me ama como eu te amo. Você já tem vinte e quatro anos, eu trinta e seis. Somos adultos o suficiente para nos casarmos

—Pedro, eu estou ficando atordoada com tudo isso. Deixe-me pensar.

—Deixo, até amanhã. —

Ela recosta em seu ombro sentindo o mesmo perfume que sempre lhe traz  a lembrança dele. Lembranças que pareciam tão inocentes e agora revelavam o quanto eram carregadas de desejos contidos. Depois diz:

—Beije-me novamente. — ele a beija com paixão.

Carolina passou a noite em claro. O beijo, o pedido, as palavras dele voltavam em ondas  como se o tempo voltasse e ela revivesse todo o tempo que conviveu com ele e convencia a si mesma que eram só amigos. Pensou que nunca se interessou por nenhum outro rapaz. Nunca namorou outro. Ele também nunca se relacionou com outra.

Pela manhã olhou-se no espelho e viu uma mulher. Não era mais a garotinha de doze anos que o conheceu na casa de seu avô há tantos anos. Não era a mocinha desprotegida que ele tantas vezes protegeu, por ciúmes, fingindo amizade. Viu-se como ele a via.

Quando a noite caiu ela saiu ao encontro dele que a esperava na cafeteria de sempre Ela chegou e foi até ele. Ele sorri.

—Você acabou se atrasando.

—É. Desculpe. — ele levanta e puxa a cadeira pra ela.

—Sente-se, princesa. O que você vai tomar? Um sorvete, um suco?

—Você vai achar que eu sou criança se eu tomar um sundae bem grandão? —  ele sorri

—Não. Só vou ficar com medo de você engordar e perder este corpo escultural. — ela fica enrubescida. Ele ri.

—Como passou o domingo?

—Um pouco atordoada e você?

-—Um pouco ansioso. — ela sorri.

—O que você tem a me dizer? Detesto perguntar tão depressa, mas estou muito ansioso.

—Pedro, eu passei a noite tentando entender o que senti ontem. Você foi parte de minha vida por tanto tempo que eu já não sabia distinguir onde terminava a amizade para começar o amor. Ou se sempre foi amor disfarçado de amizade. Talvez o amor sempre esteve ali. Quieto, envergonhado, esperando que um de nós fizesse algo por ele. Quando você me beijou algo mudou. Foi como se tudo que eu não compreendia ou admitia passasse a fazer sentido. Percebi então que todo esse tempo nós construímos um amor tão forte que não pôde mais se calar. — ele a olhou ansioso

—Tudo isto quer dizer que eu posso me considerar seu namorado? Seu futuro noivo, futuro marido? Tudo num futuro bem próximo.

—Sim, Pedro. Quero te amar sem me esconder atrás da menina que fui, da jovenzinha que você tanto protegeu. Não precisamos mais esconder nosso amor atrás da amizade.

Pedro fechou os olhos por um instante como quem agradece em silêncio. Quando abriu Carolina estava sorrindo pra ele.

—Você não imagina o quanto estou feliz.

—Imagino porque eu também estou feliz. Não imagino é minha vida sem você.

Ali no meio do movimento e barulho da cafeteira eles se abraçaram e se beijaram longamente como se só os dois existissem.


(Texto escrito no final da década de 1970, quando ainda jovenzinha, pouco mais que adolescente. . E editado agora. Perdido nos escritos durante todo esse tempo.)
Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 11/11/2025
Alterado em 13/11/2025
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