Decepção
Clarice acordou tarde naquele dia. Um atraso que parecia ecoar por dentro. A noite fora um labirinto sombrio: silêncio, frio e lembranças demais. Havia um peso no ar, uma presença invisível que ainda ocupava o espaço ao seu lado na cama. A solidão doía na alma. Vozes ecoavam em seus pensamentos. Quando saiu de casa já passava de oito da manhã. Aquele seria um dia de decisões difíceis. Estava um pouco dispersa e por pouco não esbarrou no carro da frente. Pensava em tudo que aconteceu nos últimos dias.
Tinha cinquenta e cinco anos. Era casada há trinta e um anos com Thales. Conheceram-se na faculdade e juntos criaram uma empresa de cosméticos, perfumes e maquiagem. A empresa cresceu se expandiu e se tornou conhecida. Uma vida entrelaçada de dificuldades, vitórias, sucesso e cumplicidade. Fizeram fortuna. Não tiveram filhos. Ele tinha um sério problema de fertilidade. Sentia-se envergonhado e frustrado. A todos ela dizia que o problema era seu para proteger o orgulho ferido do marido. Amavam-se, acreditava ela, até que o destino mudou o tom…
Clarice confiava tanto em Thales que nunca poderia imaginar que Vivane, secretária jovem e linda que estava na empresa há pouco mais de seis meses, pudesse lhe virar a cabeça. Mas o desejo é uma brecha nas estruturas dos relacionamentos e por ela a queda encontra passagem. Quando os pegou juntos na sala da diretoria, que dividia com ele, teve a maior decepção de sua vida. Decepção é um sentimento que dói, destrói, quebra a relação de confiança e deixa um gosto amargo de impotência. Ela olhava para os dois e via o cinismo no olhar de Viviane. Virou-se e saiu. Thales a seguiu, mas ela recusou qualquer tentativa de explicação. Há dores que não aceitam diálogo
Clarice amava Thales e agora estava sem chão. Em casa, afundou na banheira com água quente buscando renascer. Chorou muito tentando lavar sua alma, aliviar seu coração que estava profundamente ferido. Nos próximos dias ela nem sabia o que fazer. Pensava em se separar, depois pensava que não era justo deixá-lo livre para aquela mulherzinha desclassificada. Finalmente decidiu que não iria perder Thales para outra. Chamou-o para uma conversa e qual não foi sua decepção quando ele disse que estava apaixonado por Viviane e queria o divórcio. Ainda mais ferida e triste ela pediu um prazo pois estava sem condições de decidir o que quer que fosse. Precisava recolher os cacos e se refazer. Dias depois ela estava pronta…
E naquele dia foi à empresa para resolverem tudo. Chegou a sua sala e se deparou com Viviane. Thales já a esperava. Ela sentou-se e a secretária também se sentou, como se fosse a dona do pedaço. Clarice pediu que ela saísse.
—Por que eu sairia? Agora eu sou a mulher do Thales.
—Esta empresa ainda é minha e tenho decisões a tomar com o Thales que não lhe dizem respeito. Saia.
—Não vou sair. Tenho direito de ficar aqui e saber de tudo — Thales disse:
—Retire-se, Viviane, espere lá fora.
—É assim que você me trata? Por que tenho que sair?
—Por que o que vamos resolver não lhe diz respeito e Clarice não quer que você tenha conhecimento dos assuntos dela. —Ela faz cara de ofendida e tenta insistir
—Saia de uma vez. — disse Clarice. Ela resmungou, protestou, mas acabou saindo.
Conversaram e decidiram amigavelmente sobre a divisão dos bens. Ele permaneceria com a empresa, o que doeu nela, pois sempre deu seu sangue para seu crescimento. Por outro lado, ficaria muito bem e teria tempo livre para fazer o que quisesse Terminaram de conversar e chamaram o advogado pra tratar dos trâmites legais. Ao sair ela disse:
—Sei que um dia vai arrepender da decisão que tomou e vai ser tarde demais. Vai chegar o dia em que terá que expor publicamente suas fraquezas que sempre escondeu atrás de mim. Quando este dia chegar você vai se lembrar de mim e do que te digo hoje.
—Você está é com inveja porque estou feliz e você não. — ela virou-se e saiu.
Clarice estava sofrendo e não fingia que não estava. O tempo que se seguiu foi sombrio. Mergulhou numa espécie de morte emocional passando horas diante da televisão, sem nem saber o que estava passando. Estava completamente só. Perdeu o marido e a empresa que era tão importante. Os dias passavam lentos e ela sem vontade de viver. A casa enorme parecia um templo vazio, a solidão doía como uma ferida aberta.
Mas a tristeza não é eterna. Há um momento que o luto se exaure e o espírito exige movimento e vida. Ela resolveu fazer uma longa viagem. Ao voltar estava renovada. Redescobriu a vida. Entendeu que podia viver muito bem sem Thales. Conheceu outras pessoas e, apesar de não se apaixonar por ninguém, prezava a boa companhia, as conversas inteligentes, uma ou outra noite de amor, um jantar de bom gosto.
Quase quatro anos passaram e Thales era página virada para Clarice. Vieram lhe dizer que a empresa estava em dificuldade financeira e que Viviane estava tirando o que podia dele. Ela ficou triste pois tinham erguido a empresa com muito amor e dedicação. Mas aquele assunto era só dele. Ia viver sua vida. Thales que se virasse.
Meses depois veio a notícia da separação. Viviane estava grávida e o filho não podia ser de Thales. Uma grande decepção. Ele saiu do apartamento de luxo que comprou em nome dela. O rombo financeiro era devastador. O orgulho ferido era ainda pior. Ingênuo deixou que ela lhe tirasse o que quis. Não sabia o que fazer. Precisava de lucidez pra sair da grande enrascada em que se metera.
Então Thales voltou. Procurou Clarice. Estava abatido, envelhecido, deprimido. Parecia completamente derrotado. Ela chegou a sentir pena. Ele pediu ajuda para dar um jeito na empresa. Não estava conseguindo encontrar uma saída, não conseguia pensar direito.
—Você me lançou uma maldição e veja no que deu. Tudo o que me disse aconteceu.
—Você procurou a sua própria maldição quando trocou sua esposa, companheira de uma vida com quem construiu tudo, por uma aventureira, uma interesseira. E não era muito difícil prever o que ela queria. Nem prever que não se contentaria com você. O que uma garota vulgar, de vinte e poucos anos ia querer com um homem de mais de sessenta? Lógico que queria o seu dinheiro e a virilidade de algum garotão.
—Não precisa jogar tudo isso na minha cara. Já estou bastante mal e é muito triste a decepção de saber que fui enganado desta maneira.
—Eu senti na pele o quanto é triste passar por uma decepção. Você me fez passar por isso. Lembra? Mas eu posso te ajudar sim. Não por você, mas pela empresa que eu fundei e vi crescer.
Ela o ajudou. Ele vendeu parte da empresa e ficou apenas com o segmento de cosméticos. Com capital de giro ele conseguiu se reerguer aos poucos, embora a empresa estivesse bem menor.
—Clarice, volta pra mim. Você é a mulher da minha vida. Eu te peço perdão e prometo nunca mais te magoar. — ela o olhou como quem já atravessou desertos internos.
—Eu tentei não te perder, tentei te dar uma chance, mesmo tendo sido traída e você não quis, me descartou como se não tivéssemos tantos anos de história em comum. Você me trocou sem nenhum escrúpulo por uma interesseira, uma vigarista que queria e tomou grande parte do seu patrimônio. Eu te amei mais que tudo, Thales. Faria tudo por você. Agora não posso voltar. Não te amo mais. Consegui tirar o amor de meu peito, te expelir do meu ser. Acabou. O destino que te cabia, você viveu. O meu seguiu sem você. Não nos pertencemos mais. Aprendi a ser feliz sem a sua presença.
Thales baixou a cabeça e não disse nada. A verdade pesa e dispensa palavras
—Adeus, Thales!
Fechou a porta. Sentiu o silêncio não como um vazio, mas como um encerramento, um fechamento definitivo de um ciclo…
Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 25/11/2025
Alterado em 28/11/2025