Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos
Olhos Do Passado
Teus olhos têm o azul do céu, o brilho das estrelas, são uma porção do sol em meu caminho.

Atílio chegou naquela pequena cidade litorânea. Estava ali a trabalho. Como biólogo marinho, foi fazer estudos e pesquisas. Estava designado para um trabalho bem mais complexo e de última hora, houve um contratempo e acabou naquele lugar. Estava insatisfeito. Tivera uma péssima noite. Sonhos recorrentes e confusos perturbaram seu sono.
Chegou no meio da tarde. Era um lugar simples onde o turismo estava começando a ficar um pouco desordenado.

Chegou em uma barraca de praia e no balcão perguntou onde era a pousada onde ia ficar. Quando levantou os olhos do papel se deparou com olhos azuis que o hipnotizaram. Ela falava pra ele que a pousada era do outro lado da rua e que ela era a proprietária e que a barraca também era dela. Mas ele não ouvia nada. Ao olhar no fundo daqueles olhos lembrou de seus sonhos. Ela se sentiu constrangida com a insistência do olhar dele, que percebendo sorriu. Foi então a vez dela se sentir hipnotizada. Ficaram ali feito dois bobos até caírem na real. Ela, então, disse que ia levá-lo até à pousada.

Em seu quarto ele ficou pensando naqueles olhos e no que poderiam significar seus sonhos que traziam exatamente aquele par de olhos. Quando olhou aqueles olhos azuis, naquela tarde tão comum, algo se moveu no seu íntimo. Não foi só um arrepio, foi como se o tempo recuasse e memórias batessem em cheio na sua alma pedindo passagem. Sentia agora um reconhecimento súbito, algumas imagens passavam rapidamente por seus olhos. Via um templo de pedra, um campo dourado ao entardecer. Dois corpos próximos, mas sem se tocarem. A sensação de um amor que nunca pôde florir.

Por alguns minutos Angélica viajou em pensamentos. Aquele sorriso tocou fundo em sua alma. Como se o conhecesse de tempos longínquos. Sempre via aquele sorriso em seus sonhos, parecia lhe visitar e trazer lembranças de outras existências. Sua mente estava confusa. Tentava lembrar de alguma coisa, mas não sabia o que era. O trabalho a trouxe de volta à realidade, embora alguma coisa a incomodasse. Seguiu pela tarde sem ter tempo de pensar naquele episódio. Talvez fosse só uma tolice.

Durante o jantar Atílio viu Angélica. Ela estava muito ocupada cuidando para que tudo saísse muito bem. A pousada estava lotada. Ele comia devagar e o pensamento estava longe. Talvez o contratempo que o levou até ali não fosse tão ruim assim. O lugar era agradável e sentia-se melhor depois de descansar um pouco e saborear aquele jantar. Angélica chegou até sua mesa e perguntou se estava tudo a seu gosto. Ele assentiu com a cabeça olhando fixamente pra ela. Era uma mulher linda, Cabelos pretos e muito lisos, pele bronzeada, pernas torneadas e aqueles olhos…

Mais tarde estava na recepção e Angélica se aproximou e o convidou para uma caminhada na praia. A lua estava deixando tudo lindo. Ele a acompanhou. Ela perguntou pelo seu trabalho e ele perguntou se ela sempre viveu naquele lugar. O papo fluía fácil. Parecia que se conheciam há muito tempo. Mantinham uma distância cordial, talvez com medo de que qualquer aproximação fosse inconveniente. Mais tarde se despediram e ele foi pra seu quarto. Durante toda a noite teve sonhos confusos. Viu um barco partindo, uma mulher chorando, um adeus triste e sombrio.

Acordou tarde no dia seguinte e já estava atrasado. Rapidamente se aprontou e foi tomar seu café. Angélica lhe disse “Bom dia” sorrindo e avisou que o guia já estava esperando por ele, mas não quis chamar pra não perturbar. Tomou seu café e saiu depressa. Estava com dificuldade de se concentrar em seu trabalho. Algumas vezes vinham visões que ele não sabia explicar. Algo de místico e enigmático estava acontecendo naquele lugar.

Os dias passavam lentos e tranquilos. Ele trabalhava durante o dia e voltava para a pousada. Não sabia nada da vida de Angélica e nem ousava perguntar. Eles se olhavam de maneira intensa, mas era como se estivessem impedidos de se aproximarem. Ambos sentiam que havia algo que precisava ser decifrado.

Ele a convidou para uma caminhada na praia depois dos jantar. Caminhavam em silêncio. Um silêncio pesado que sabe que precisa virar palavras. Uma barreira que pede pra ser transposta e virar encontro. Mas que encontro é este que parecia esperar por tanto tempo para virar realidade? Ele parou, virou-se para ela e olhou em seus olhos. Via imagens que não conseguia decifrar ou entender.

—Não é a primeira vez que te vejo. O azul e a luz dos seus olhos me são familiares. É como um farol que meu espírito persegue há séculos, sem conseguir se aproximar.

—Seu sorriso também não me é estranho. Parece que já o vi em tempos idos. Tempo demais. Tempo perdido na memória atual.  — e ele começou a falar de modo estranho.

—Vidas que vivemos e nos amamos sem ficarmos juntos. Muitos fragmentos me vêm em flashes. Sempre o mesmo destino interrompido. Amantes partidos por guerras, por juramentos, fronteiras erguidas pelo medo, promessas sussurradas no momento da morte pedindo ao universo uma nova chance, novo encontro, um tempo mais brando.

—Sinto a mesma coisa. Quando te vi sorrir foi como se o universo se abrisse e me acolhesse nesse sorriso. Mas não sei explicar. Tenho medo de coisas misteriosas e enigmáticas. O que sei é que tenho esperado por um amor que meu coração me prometeu desde sempre. Mas sem me dizer o momento. Apenas me dizendo que não tivesse pressa.

—Talvez o universo, paciente e guardião dos destinos, esperou até agora para fazer cumprir este amor. Também eu espero pelo amor que até agora estava tardando.

Naquela noite suas mãos se tocaram. Eles sentiram que voltavam para casa depois de atravessar muitos vales e desertos. Sentiram que entre eles não nascia um amor, mas era a continuação de uma história milenar que sempre foi interrompida pelo destino. Beijaram-se. Tocaram-se como nunca puderam. Voltaram para a pousada e deixaram que todo o desejo se realizasse em seus corpos colados, em carícias carregadas de uma saudade e urgência que transcendia o tempo e o espaço. Amaram-se pela noite adentro. Só eles existiam e nada mais importava.

—Querida, tudo em você me soa familiar. O modo como sua voz toca meus ouvidos, minha alma reconhece a sua, meu corpo encontra abrigo no seu. Sinto que estamos em um reencontro para concluir o que nos foi negado tantas vezes.

—Sinto da mesma forma, mas tenho medo que o destino venha novamente nos separar. Você me olha com a luz de estrela e sol e a lembrança de outros tempos vem nítida. A lembrança da promessa de que um dia nos reencontraríamos. Aqui estamos. Mas até quando? Tantas vezes nos perdemos.

—Sinto que enfim viveremos o amor que tantas vidas nos obrigaram a adiar. Seu olhar não precisa mais fugir do meu, meu sorriso é seu.

No dia seguinte sentiam que tinham vivido um sonho bom. Ficaram juntos pelo tempo que ele esteve lá. Na sua partida ficou a promessa de retorno. Mas no ar uma certeza que ele partiria pra sempre. Que mais uma vez a separação era inevitável.

Dias, semanas, meses se passaram e a distância doía nos dois. Uma saudade milenar os atingia. Seguiam sua vida, mas não havia brilho em seus olhos. Até que ele jogou tudo pro alto e voltou pra ela. Quando ela o viu chegando, correu e se atirou em seus braços. Ainda abraçado a ela,  ele disse:

—Voltei pra ficar. É aqui que vou trabalhar, viver e te amar. Somos reencontro, memória. Somos o que resistiu ao tempo. Somente nesta vida e nestes corpos seremos pela primeira vez inteiros…


Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 30/11/2025
Alterado em 30/11/2025
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