Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos

Bilhete

Ela olhou o envelope um pouco amassado. Abriu. Havia um bilhete manuscrito em letras irregulares, papel comum. Leu devagar:

“Ao te ver tão linda, tenho vontade de tomá-la em meus braços.

Mas você é a maciez da seda fina. Eu, a aspereza do algodão barato.

Você é dos salões requintados. Eu, do chão da fábrica.

Você é dos perfumes sofisticados, fragrâncias finas. Eu, do suor do trabalho.

Você é a elegante mulher que passeia em meu imaginário. Eu, o homem que lê romances imaginando vivê-los ao seu lado.

Você é a mulher inteira, completa, que conquistou o mundo. Eu, homem em construção tentando ser tudo isso.

Você é a mulher que povoa meus sonhos e me faz acordar sorrindo. Eu nem sei se mereço um pensamento seu.

Você é a mulher que que passeia em meu coração. E eu? O que sou?

Coração não entende diferenças e padrões sociais.

Coração se entrega inteiro, só entende de amor.”

 

Ela sorriu. Respondeu em papel perfumado, com letras bonitas, quase desenhadas:

“Sou beleza delicada. Você, a clássica beleza masculina.

Sou requinte e sofisticação. Você, diamante em processo de lapidação.

Sou inteligência, você também.

Sou completa, você está a caminho.

Sou a mulher, você é o homem

Sou vontades. Você, desejo.

Sou metade pronta pra você completar.

Entre quatro paredes, dois são um. Têm o mundo nas mãos.

Tudo que é consentido, é permitido.

Ainda que aqui fora a hipocrisia condene o que não entende.

Entre um homem e uma mulher, mais que o encontro entre corpos, existe a beleza da troca de idéias, encontro de almas.

Tudo mais são detalhes.”

 

Olhares, flertes, encontros.

 

Nada é proibido, nada é eterno, nada é constante.

O que faz feliz, liberta e ilumina o corpo, o coração, a mente.

Liberdade é viver sem medo, sem amarras, sem preconceitos.

Diferenças são superadas.

O que importa é a intensidade do que se vive e sente.

 

Só os momentos intensamente vividos se eternizam na memória, na pele, nos sentidos.

 

 

Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 08/02/2026
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