Certas lembranças guardam o fato e a atmosfera sem se importar com datas. O Brasil vivia os anos mais sombrios da ditadura militar. Mediam-se as palavras e os atos. A polícia estava logo ali.
Era uma manhã como outra qualquer: céu muito azul, a luz do sol entrando pelas janelas. Estávamos na escola, pré-adolescentes, para variar, assistindo aula de Moral e Cívica. Alguns entediados, outros com o pensamento distante. Só a voz da professora se ouvia. Nada anunciava o que estava prestes a acontecer.
De repente, algo mudou lá fora. Parecia que o tempo estava ficando nublado. A claridade foi diminuindo como se uma tempestade se anunciasse, mas sem vento, raios ou trovões. Estávamos imóveis. A sala escureceu até que a noite chegou em plena manhã.
Não lembro de gritos nem perguntas. Lembro-me de um silêncio absoluto, inclusive da professora. Suas pernas recusaram-se a andar até o interruptor para acender a luz. Ninguém se levantou para olhar lá fora. O inexplicável nos deixou sem reação. Perguntar naquela época era perigoso, mesmo sendo sobre chuva.
Por alguns minutos, cinco talvez, a manhã deixou de existir. A sala mergulhou em um penumbra que minha memória insiste em chamar de noite. Ninguém explicou, rezou ou correu. Apenas esperamos pra ver o que aconteceria.
E tão misteriosamente quanto veio, a escuridão foi cedendo. Uma claridade tímida, as formas reaparecendo, as paredes recuperaram sua cor, os rostos voltando a ser vistos. Nenhuma chuva caiu. O sol voltou a brilhar.
Então, sem nada dizer, a professora retomou a aula, como se o dia não tivesse desaparecido diante de nós. Ninguém comentou nada. Era como se fosse um assunto proibido que devia ser esquecido. Talvez por isso aquela lembrança nunca me deixou.
Passaram-se os anos. Vieram outras manhãs, outras escolas, outros professores, outras notícias. A democracia foi reconquistada, a liberdade de expressão fez-se realidade.
Aprendi que a ciência explica tudo, menos aquela escuridão repentina que deixou a escola e a cidade em alheamento total, como se nada tivesse existido.
Há uma coisa de que não duvido: eu estava lá, a professora estava lá, meus colegas estavam lá. Vimos algo impensável, o sol se apagar. E ficamos em silêncio.