Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos

A Porta Sem Nome

Acordou pela manhã. Mais uma noite e nada mudara. Quarta-feira outra vez. Podia ser quinta ou sexta. A rotina era a mesma nessa existência sem objetivo, sem um acontecimento capaz de romper a mesmice. Uma sucessão irritante de dias iguais.

 

Levantou-se. O sol brilhava, indiferente à sua insatisfação. Pensou no tempo perdido, nos sonhos. O que conseguira resumia-se a um emprego público que lhe garantia estabilidade financeira. Bobagem. Estabilidade seria nascer em uma família milionária e jamais precisar se preocupar com dinheiro.

 

Estava num trabalho maçante que lhe roubava a criatividade, a capacidade de pensar grande, de imaginar possibilidades, de fazer algo de que pudesse se orgulhar. Um dia sonhara ser cientista. Fazer pesquisas, descobertas importantes.

 

A vida era só rotina e solidão. Passava os dias entre relatórios, horários, reuniões, prazos. Pessoas falando de coisas que em nada lhe interessavam. Voltava para casa com a sensação de que os dias passavam sem estar vivendo.

 

Dói o silêncio, o descaso, o vácuo. A decepção pesa. O desencanto e a frustração se instalam dia a dia. Ausências caminham pela alma como sombras. Palavras não ditas, gestos negados, respostas perdidas nos corredores do destino. O coração se entristece. Pensa nos desencontros. Busca na memória sentido para o que não floresceu.

 

Quando a vida perdera o encanto e se tornara fardo? Talvez não houvesse linha do tempo. Pequenas coisas se acumularam. A alma foi ficando cinzenta, desbotada. O amor morno não lhe descia pela garganta. Desacreditou das pessoas, da amizade e do amor. Desencantou-se da vida, dos sonhos, das ilusões.

 

A vida era rotina, trabalho e decepções. Tornou-se sombra e amargura, falava pouco. Não tinha o que dizer a pessoas vazias e fúteis. Diziam que era um poço de tolice. Não. Era sinceridade e autenticidade. Diziam que era pura fraqueza. Não. Era sensibilidade e delicadeza demais para um mundo que exigia couraça.

 

Nunca compreendeu a necessidade que a sociedade tem de usar máscaras para ser aceita. Nunca entendeu como alguém pode sorrir enquanto trai, abraçar enquanto calcula o golpe, prometer o que não vai cumprir. Por muito tempo julgou ter sua parcela de inadequação. Quem sabe nascera no tempo errado, ou esperasse demais das pessoas.

 

Naquela quarta-feira, seguiu sua rotina. Fez tudo igual: calou quando queria gritar, sufocou um palavrão, fez o que não queria. Até que o expediente acabou e voltou para casa com um sabor amargo de derrota. omissão e submissão. Entrou e sentiu vontade de gritar, esbravejar, mas se calou. Fez o jantar e o engoliu junto com o nó na garganta. Estava sem lugar, sem vontade de nada. Debruçou na janela e ficou olhando a rua, o céu, a lua e estrelas. Sem perceber disse:

 

—Não quero fugir de minha vida, não quero terminar meus dias sem viver.

 

Permaneceu em absoluto silêncio. Ouviu um som muito distante. Não sabia identificá-lo Seria o vento, uma canção, o farfalhar das árvores? Algo dentro de si falava? Fechou os olhos e ouviu:

 

—Você ainda não descobriu a razão de sua existência.

 

Abriu os olhos assustado. Tudo permanecia calmo, ninguém na rua. E aquela frase permaneceu. Disse alto:

 

—Por que vim? — a resposta

 

—Não para o emprego que tem, não para a rotina ou para repetir os dias até que se transformem em anos.

 

Pela primeira vez pensou na própria vida e não sentiu o peso da solidão, mas a leveza de quem entende que não lhe fora negado um sentido. Era preciso procurá-lo.

 

Dormiu profundamente. Sonhou que caminhava por um corredor ladeado de portas fechadas sobre as quais se liam palavras gravadas: medo, perda, desejo. solidão, orgulho, amor, perdão, coragem, paz, saúde, saudade, amizade, força, atenção, carinho, união. Havia uma porta sem nome. Tentou abri-la. Estava trancada. Ouviu uma voz:

 

—Não procure a chave. Procure entender o que deixou do outro lado e ela se abrirá.

 

Acordou antes do amanhecer. Ficou imóvel. Pensava num modo de decifrar aquilo. O que deixara do outro lado da porta? Começou a prestar atenção nos pequenos detalhes. Uma conversa, um livro, uma lembrança antiga, uma vontade abandonada. Sentiu que havia em si sonhos, desejos e aptidões que a rotina soterrara, mas resistiam.

 

Compreendeu que perdas foram necessárias para chegar ao ponto de parar e escutar a alma, o coração. Não acreditava em destino, não sabia se havia uma missão, mas entendeu que se quisesse atravessar a porta, teria que ir em busca do que deixara lá.

 

Numa noite, debruçou na mesma janela. O céu estava limpo. As estrelas pareciam próximas. Perguntou baixinho:

 

—O que devo fazer com a vida que ainda tenho? — não ouviu resposta. Percebeu que se quisesse encontrar o caminho, teria que começar a caminhar.

 

A manhã seguinte era quarta-feira. Mas não lhe parecia um dia igual. Lá fora tudo permanecia o mesmo: a rua, o trabalho, os colegas. Em si, porém, havia mudança. Não encontrara a felicidade nem descobrira sua missão. Não resolvera o passado. Mas não esperava que a vida lhe entregasse um sentido. Começou a procurá-lo.

 

Era o primeiro sinal de que a alma, depois de tanto tempo adormecida, começava finalmente a despertar. Sorriu. Alguns silêncios são apenas o espaço necessário para que a própria voz possa ser ouvida. A voz que foi confundida, durante tantos anos, com solidão, mas que nunca deixou de esperar, paciente, para ser ouvida.

 

 

 

 

 

 

 

Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 24/09/2026
Alterado em 24/09/2026
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