Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos

O Filho do Destino

Ele tinha uma beleza rústica dos homens que parecem nascidos da própria terra. Cabelos indisciplinados, corpo forte, olhar comprido e tímido quase sempre sombreado por uma tristeza que nem ele sabia explicar. Trazia a inquietude da juventude, desejos sem nome e uma cobiça que ardia por dentro. Sabia que ela não era para ele, mas o coração explodia no peito.

 

Ela era de uma beleza deslumbrante. Tinha a elegância natural de quem nunca precisara se esforçar para ser notada. Oscilava entre a inocência de menina e os primeiros mistérios de mulher. Olhar tímido e provocante, sorriso largo. Provocava aquele rapaz, que despertava nela desejos selvagens e pensamentos libidinosos.

 

Ela conhecia tecidos finos, os perfumes delicados, os livros Recebera fina educação. Ele conhecia o peso do trabalho e a rudeza de uma vida sem privilégios.

 

Ele a desejava em silêncio. Ela se divertia com o que provocava nele. Seu jeito rústico e másculo despertava os desejos dela. Ele se encantava com a beleza tão delicada dela e, em sonhos, tomava-a nos braços.

 

Entre eles havia algo que as cercas não podiam separar: a força indomável da juventude e uma afinidade misteriosa que não se explica. Como se as almas se reconhecessem através dos séculos. Quando se olhavam, algo se mexia dentro deles.

 

Ela o provocava com pequenos gestos, um sorriso oferecido e logo recolhido. Ele respondia com o embaraço de quem desconhecia os jogos de sedução, mas sentia no corpo uma linguagem antiga, anterior a qualquer aprendizado.

 

Encontraram-se longe de olhares curiosos. Por um instante ficaram imóveis, presos a um silêncio carregado de desejo. Ela se aproximou perigosamente. Ele a puxou. Um longo beijo pedia muito mais. Havia nele a urgência do momento e a delicadeza de um amor puro e sincero. Sem pensar em nada entregaram-se sem reservas, por loucas horas.

 

A tarde observava indiferente, o vento movia as folhas, um pássaro cantava, o sol derramava luz sobre a terra. Entre eles, porém, o mundo pareceu parar e suspender suas leis. O tempo perdeu a forma e eles perderam o juízo, sem medir consequências.

 

Não pensavam nas diferenças nem no escândalo que uma descoberta poderia provocar. Havia apenas o presente, a vertigem e a sensação quase sobrenatural de terem sido conduzidos um ao outro por uma força que não compreendiam.

 

O escândalo veio com uma gravidez indesejada. O encantamento desapareceu sob o peso de olhares acusadores, perguntas e medo. Os pais queriam saber quem era o responsável por tamanha desonra. Perguntaram, insistiram, ameaçaram. Ela se calou. Talvez por medo de arruinar a vida do rapaz, talvez por não saber explicar o que nem ela mesma compreendia. Ou porque, no fundo, quisesse preservar aquele breve amor da violência com que o mundo o julgaria.

 

Para a família, não havia espaço para dúvidas, sentimentos ou escolhas. Uma moça de família não podia engravidar daquela maneira. Importava salvar as aparências. Obrigaram-na a interromper a gravidez. E algo dentro dela também pareceu interrompido.

 

Carregava uma tristeza sem nome. Havia dias em que se sentia vazia, como se uma parte de sua alma tivesse sido arrancada sem que ninguém percebesse. Outras vezes uma angústia inexplicável tomava conta dela: a sensação de que alguém em algum lugar esperava por ela.

 

Foi mandada para outra cidade para estudar e nunca mais viu seu amor. Apaixonou-se, namorou, casou-se. O marido era um homem bom, que a amava e cobria de carinho. Era feliz com a vida que construíra. Os anos passaram e aquela aventura intensa foi perdendo os contornos. As lembranças adormeceram e deram lugar a um amor maduro.

 

Anos depois ela estava na casa dos pais sem o marido, passando alguns dias com a mãe. Sentia uma força silenciosa, como se antigos segredos a rodeassem. Ao sair, viu-o. O passado se abriu diante dela. O rapaz de olhar tímido e beleza rude transformara-se num homem, mas os olhos permaneciam os mesmos. Havia neles a sombra antiga.

 

Ele também a reconheceu. O olhar dele percorreu seu rosto com uma demora que não pertencia ao presente. Ela sentiu o coração acelerar e um calor inesperado subir pelo corpo, como se uma corrente invisível atravessasse os anos e a devolvesse àquela tarde distante. Era a lembrança despertando a carne.

 

Tentou desviar os olhos, mas não conseguiu. Havia naquele reencontro sensação de sonho, encantamento e perigo. A mulher adulta desapareceu e deu lugar à jovem apaixonada. Ele se aproximou e sussurrou algo no ouvido dela. A voz grave trouxe de volta uma intimidade que julgava perdida. Por que o destino o trouxera de volta justo agora? Seria apenas um coincidência? Ou o destino lhe dava uma nova oportunidade?

 

Saíram discretamente. Pouco depois encontraram-se. Ela não sabia se fora até ali por vontade própria ou se uma parte de si caminhara naquela direção sem pedir permissão. Ele se aproximou. Não eram mais os jovens de outrora. Havia outras vidas envolvidas. Conheciam o peso das escolhas, a extensão que as atitudes poderiam provocar.

 

Ainda assim as certezas vacilaram, o passado ressurgiu. Beijaram-se e o fogo renasceu. Tocaram-se e amaram-se com a paixão que resistira ao tempo. O desejo ressurgiu com a intensidade de uma chama alimentada por anos de espera. Não havia inocência naquela tarde, havia consciência. Mas também a certeza que aquilo era incontrolável.

 

Por algumas horas deixaram de pertencer às vidas que haviam construído. Escolheram não pensar nelas. Sentiram que algo mudara para sempre. Sabiam que não voltariam a serem quem eram antes. Despediram-se com apenas um beijo, sem palavras.

 

Ela retornou à sua casa, ao marido, aos compromissos. Tentou convencer-se que o reencontro foi um desvio, uma fraqueza, um acontecimento que devia permanecer enterrado naquele lugar.

 

Dias depois percebeu que estava grávida. A notícia foi recebida pelo marido com uma felicidade que lhe apertou o coração. Há muito tempo desejavam um filho e não acontecia. Logo agora… Ele a abraçou e falou sobre o futuro com a alegria de quem finalmente vê um sonho se realizar. Ela sorriu, mas por dentro sentia-se sem chão.

 

Os meses passavam e a criança crescia em seu ventre. Lembrava-se da criança que fora obrigada a tirar. O bebê nasceu e foi uma imensa alegria. Ela observava seus traços buscando semelhanças. Ele crescia e o segredo apertava o peito dela. Por muito tempo tentaram ter outro bebê que nunca veio…

 

 

 

 

 

 

 

Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 16/10/2026
Alterado em 17/10/2026
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