Nádia Gonçalves
A cada dia cresço, esclareço e me transformo em prismas de puro brilho essenciais à minha alma.
Textos

Herança de Sombras

As portas do casarão se abriram. O mordomo Anísio já o esperava. Euzébio entrou. Há quanto tempo não pisava ali. Uma emoção sutil e estanha apertou-lhe o peito. A sala, templo de trevas austeras, com móveis de ébano e veludos clássicos e imponentes, sempre lhe pesara a alma. Era o reflexo exato da arquitetura da alma que ali habitara. Movido por um impulso de ressurreição, caminhou até as janelas e escancarou-as. O sol entrou e dissipou um pouco as sombras. Mas, elas pertenciam ao lugar.

 

—Euzébio, seu pai jamais permitiu que as janelas fossem abertas dessa maneira. A claridade profana o silêncio dos móveis.

 

—Anísio, meu pai está morto. Quem tem que gostar de alguma coisa aqui sou eu. — o mordomo silenciou, mas seu olhar era de desagrado

 

Euzébio Lourenço Fagundes Bicalho nascera naquela família aristocrata, herdando o nome dos avós. Filho único, conhecera a felicidade frágil da infância sob a proteção de uma mãe que era o reflexo da candura. Muito mais nova que o marido, fora desposada na alvorada da juventude e por anos não dera filhos ao esposo. Até que, finalmente, Euzébio nasceu. O pai, homem austero e rude, desejava uma prole numerosa e continuava a açoitar o coração da esposa com o chicote do desprezo, chamando-a de terra estéril.

 

O menino amava o pai e espelhava-se na mãe a quem venerava. Na adolescência, porém, os atritos com o pai multiplicaram-se. Ele exigia que o filho se comportasse como um homem, saísse da barra da saia da mãe, moldasse a vida à sua imagem, comandasse os negócios e lhe desse netos. Euzébio defendia a liberdade de escolhas, o pai o jugo do conservadorismo. Depois de uma discussão violenta, Euzébio foi estudar na capital e só retornava para visitar a mãe, evitando o olhar cortante do pai. Tornou-se próspero pela sua inteligência e capacidade, mas recolheu-se em uma existência solitária, introspectiva e cheia de fantasmas invisíveis.

 

Quando a mãe faleceu, pai e filho fenderam-se em pedaços, mas nem dor os reconciliou. Cada um recolheu-se à sua ilha de silêncio. Euzébio nunca mais voltara à casa do pai. No funeral dele, estava em viagem e não conseguiu chegar a tempo. Agora voltava para tomar posse do que era seu e assumir o comando dos negócios.

 

Anísio anunciou o jantar. Euzébio entrou na sala onde tudo permanecia como sua mãe deixara: cristais, porcelanas, talheres de prata. Lembrou-se dela, do bom gosto, do refinamento e da nobreza. Viu-se criança. À noite embalado pelo tempo, ouviu músicas que ela amava. Nos dias seguintes, iniciou mudanças na empresas e na casa.

 

Até que a imaterialidade começou a manifestar-se. Noites rasgadas por passos arrastados, móveis que deslizavam pelo assoalho, objetos que se espatifavam no chão. Pensou que fosse Anísio, mas ele negava. Dias depois, lia na sala quando as janelas fecharam-se. Atribuiu ao vento, abriu-as e travou-as. Elas se fecharam de novo. Assustou-se, mas seguiu a vida. Muitas vezes acordava à noite com barulhos estranhos, durante as refeições, um taça ou prato se quebrava do nada. Na empresa também alguns fenômenos estranhos aconteciam. Não sentia medo e dizia:

 

—Você não me vencerá, não dobrará minha espinha.

 

Na empresa, a matéria densa do cotidiano cruzou com o inesperado. Na linha de produção, Euzébio deparou-se com Felipe, um estagiário de luz própria, jovem, fluído e descontraído. Numa fração de segundo, os olhares cruzaram-se, e Felipe abriu um sorriso largo que lhe desarmou as defesas Euzébio retirou-se apressado. Entrou em sua sala, sorrindo, pensando no estagiário. Ao sentar-se na cadeira, ela virou, e ele foi ao chão. Ficou assustado, mas manteve a calma.

 

A situação começava a sair do controle e a atrapalhar sua rotina, sua vida e seu trabalho. Até que numa noite, sonhou com a mãe. Um sonho muito real em que ela lhe dizia que precisava perdoar e pedir perdão ao pai. Ele respondia que não sentia necessidade de pedir perdão nem perdoar. Ela dizia que eles eram iguais e que precisavam entender que ambos erraram e se perdoar.

 

Ele acordou perturbado. Respeitava a sabedoria da mãe, mas não sabia como pedir perdão ao pai. Não acreditava que pudesse falar com um espírito. Sua vida tornava-se um caos. Sentia-se atraído por Felipe que sempre o provocava e tentava se aproximar. Esquivava, mas não parava de pensar nele.

 

Felipe terminou o estágio e decidiu que ir embora. Cansou de esperar que Euzébio aceitasse seu amor. Euzébio chorou aquela perda, mas não conseguia deixar de lado seus traumas e ser quem realmente era. Tornou-se ainda mais solitário.

 

Naquela noite, culpou o pai por sua covardia, a educação recebida, as humilhações, a severidade da criação. Culpou a vida por lhe ter ensinado a suportar a infelicidade com muito mais facilidade que a felicidade. Perguntou-se até quando continuaria entregando aos mortos o poder de decidir como viver.

 

Dias depois, enquanto apreciava um licor, uma lufada de vento gélido tocou seu rosto. O ar tornou-se denso e Euzébio sentiu uma presença junto a si. Recostou-se no veludo do sofá, tragado por um estranho transe.

 

—Meu filho! Você é o filho que tanto quis ter, mas nunca foi o que eu esperava. Decepcionou-me, envergonhou-me, nunca seguiu meus passos, nunca honrou o nome que carrega.

 

—Meu pai! Eu o amei e respeitei, mas você também nunca foi o pai que eu sonhei ter. Sou uma pessoa distinta. Não sou você, nem meus avós. Você nunca me respeitou, nunca me permitiu ser eu mesmo. Sempre soube de minha infelicidade, preferiu me ver infeliz. Podíamos ter convivido em harmonia, cada um respeitando o outro, mas você nunca entendeu isso. Embora ainda carregue muitas mágoas, eu te perdoo do fundo do meu coração e peço seu perdão por tê-lo decepcionado. Peço que siga seu caminho e me deixe seguir o meu. O afeto que não tivemos em vida, tenhamos agora. Eu aqui seguindo minha vida, você seguindo sua trajetória na eternidade.

 

—Meu filho, estou muito cansado. Preciso encontrar a paz. Relutei muito, mas agora preciso do seu perdão, preciso perdoá-lo. Por isso, eu te abençoo e te liberto para ser feliz. Recebe o abraço de pai que nunca te dei em vida.

 

Euzébio teve um sobressalto, sentindo ser tocado. Olhou em volta: a sala estava vazia, o vento cessara. Chorou. Chorou todas as lágrimas que estiveram represadas por tanto tempo. Depois foi para o quarto, e tudo estava tranquilo. Teve paz depois daquele dia.

 

Contudo, a dor da ausência de Felipe ainda machucava seu coração. Não tinha coragem de libertar-se, procurá-lo e viver um amor. Não conseguia ousar ser feliz. O tempo passava, e ele cada vez mais solitário e infeliz.

 

Tempos depois, de férias em uma praia, Euzébio estava mais introspectivo que de costume. A tarde caía, ele observava o sol se por. Seus raios tingiam a água do mar de dourado. Distraído, ele obersavava o belo cenário. De repente, ouviu:

 

—Euzébio. — ele estremeceu e se virou lentamente:

 

—Você? — o coração disparou, as pernas estavam trêmulas

 

—Parece que o destino está tramando a nosso favor — disse Felipe com um sorriso largo e mãos nos bolsos.

 

Olharam-se longamente sem nada dizer. Mantiveram certa distância. Depois, sentaram-se na areia e conversaram. A princípio falaram de banalidades, depois o papo foi ficando sério. Felipe falou de sua tristeza por estar longe, reafirmou seu amor. Euzébio, sempre reservado, falava por enigmas.

 

Ao se despedirem, abraçaram-se e prometeram um novo encontro. Sozinho, Euzébio sentiu a brisa do mar no rosto e estremeceu levemente. No coração uma certa euforia. Quem sabe, finalmente, teria coragem para assumir-se como era, falar a Felipe de seu amor, viver e ser feliz.

 

Nádia Gonçalves
Enviado por Nádia Gonçalves em 28/10/2026
Alterado em 28/10/2026
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